Modelo Terror de conduta

Tenho uma gata de três patas. Meu ex achou ela abandonada no acostamento de uma avenida. Ninguém quis adotar por ela ser defeituosa, e acabamos ficando com a bicha e chamando-a carinhosamente de Tripé.

Muito cedo a Tripé (ou Tripa) mostrou que não sabia que não tinha uma pata. Ela nasceu assim, com um toquinho atrofiado, e isto era tudo o que ela sabia. Ninguém nunca falou pra ela que ela era deficiente, e ela agia como um gato normal. Pior que um gato normal. Bem pior.

Muito filhotinha ela resolveu pular na janela, mas desequilibrou e caiu lá embaixo. Quase morri do coração, sorte que morávamos no primeiro andar e ela não se machucou. Quando entrei com ela no apartamento, a primeira coisa que a Tripa fez foi pular de novo na mesma janela.

Como ela era minúscula, as pessoas não enxergavam a gatinha e acabavam pisando nela. Imagina o remorso de pisar num filhotinho deficiente! Logo a Tripa descobriu que quando alguém pisava nela, em seguida a pegava  no colo e dava muito carinho. Pronto, virou um gato karmikase. Lembro uma vez que ela se enfiou de propósito embaixo do pé do meu ex-sogro. O homem é imenso e sólido! Achei que ele tinha matado a gata. E ela passou a noite ganhando muito carinho.

Se a Tripa queria uma coisa, ela pegava. Uma vez eu estava sozinha em casa, com gesso até o joelho e muita dor. Pedi uma pizza e depois de comer deixei o que sobrou dentro da caixa fechada, em cima da mesa, com uma pilha de livros em cima, porque não tinha condições nem de guardar ela no forno. Achei que os livros impediriam a Tripa de vandalizar. Com muito esforço me preparei para dormir embaixo de vários cobertores. Quando dei aquele suspiro de ufa! consegui! escutei o som de uma pilha de livros e uma caixa de pizza serem empurrados pra fora da mesa e se espatifarem no chão. Nem pensei em levantar, até chegar lá estaria tudo perdido mesmo.

No dia seguinte descobri que a Tripa tinha arrancado os pedacinhos de carne e deixado todo o resto. As outras gatas, Pata e Ritinha, só comem ração (a Ritinha come também bichos nojentos) e nem chegaram perto da pizza.

Depois de um tempo a Tripé cresceu e ficou gorducha, e passamos a chama-la de Gorda. E a Gorda descobriu que era charmosa. Então quando chegava visita em casa as outras gatas ficavam tímidas e se escondiam, e a Gorda vinha com a maior cara de pau do mundo se jogar no chão com aquela barrigona peluda pra cima, ronronando e balançando o toquinho. Se a pessoa não se abaixasse pra fazer carinho ela tentava de novo, dessa vez em cima do pé do vivente. Uma vergonha!

Numa dessas aventuras ela acabou quebrando um canino. Agora imagine um gato obeso, sem uma pata, com um dente quebrado e sem noção nenhuma de limites.

Aí surgiu o modelo TERROR de conduta.

Minha irmã e eu passamos a chamar de TERROR qualquer pessoa que tivesse um comportamento cara de pau e destemido como o da Terror (acabou virando mais um nome pra ela).

Então o que é ser TERRORISTA? Pra gente, é basicamente não ter medo de viver. Superar barreiras que muitas vezes só existiam na sua cabeça e simplesmente buscar o que você quer. Dar mole descaradamente para um gatinho que você acha que nunca te daria bola, por exemplo, é ATERRORIZAR ele. Ir pra balada com as amigas, dançar como louca, paquerar, rir e não estar nem aí é ESPALHAR O TERROR.

Mas terror não tem a ver só com paquera. Tem a ver com fazer uma entrevista de emprego mesmo insegura, é tirar férias sozinha, ousar numa negociação, tomar conta da própria vida.  Mandar ver em coisas que ninguém nunca esperou de você, apostar alto, se sentir gostosa, linda e capaz de tudo.

Quando às vezes alguém me surpreende, mostra as garras (no bom sentido), vira um TERROR pra mim. TERROR é elogio.

Não confundir TERRORISMO com falta de noção ruim, grosseria e mau caráter. Uma coisa é ser um pouco karmikase quando você quer muito uma coisa, outra bem diferente é ser assim o tempo todo, não ligar para os sentimentos das pessoas e não assumir responsabilidades.

Um cara casado, por exemplo, pode ser TERROR sem ser infiel. Ele pode aterrorizar apenas a esposa e ser muito feliz. O índice de terror é medido por: SURPRESA, CORAGEM, CARA DE PAU e CHARME, não por número de pessoas atingidas.

Pra mim o exemplo perfeito de terror é aquela pessoa quieta, na dela, que todo mundo acha meio bobinha, e, de repente, TOCA O TERROR no meio de uma reunião, ou na paquera. Sabe aquela coisa que todo mundo leva uns segundos pra entender o que está acontecendo? Como assim? Isso é TERROR.

O ensinamento da Gorda permanecerá para todo o sempre.

MAY THE TERROR BE WITH YOU.

Minha gata gordaTripé bebê

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    • Leandro
    • 27 de Maio, 2011

    🙂

    • Marcia
    • 27 de Maio, 2011

    A Gorda é exemplo de vida cara… Ou tu acha que eu viria pra cá aterrorizar a França sozinha se não tivesse aprendido o destemor com a Tripod?
    Paixao da vida, que to morrendo de saudades. Vou esmagar muito aquela pança quando eu chegaar!!!!

  1. Ficou muito legal o post Ana, virei fã da Gorda Terrorista! 🙂 Bjos do João e da Kétlin. Ah, e da Pandora, que também é gorda 😛

  2. Obrigada pela visita João, Ketlin e Pandora!!
    Quando eu for pra Crici apresento a Gorda pra vocês! Tenho certeza de que ela e a Pandora vão se dar muito bem! 🙂
    BEijos!!!

  3. isso que a tripa

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