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Reticências

E Carmem cansou. Cansou do emprego, de ser observada e controlada por um chefe, que não era mau, mas era um chefe. E cansou do namorado, que parecia prestativo e interessado, mas que sempre deixava Carmem com a sensação de que ele era um grande egoísta. E cansou da faculdade, que como todos sabem, é quase tão inútil quanto o segundo grau. E cansou de ver gente triste e gente pobre. Todo mundo cansa. Mas Carmem CANSOU, realmente, de uma forma sem volta. Cansou da vida. Dessa coisa tão sofrida e desinteressante e sem sentido que é a vida. Decidiu que não ia pautar uma existência tão curta por regras que ela nem pôde opinar na criação. Ela ia fazer só o que valia a pena. E como um sinal divino, nuvens encobriram o verão do senegal e Carmem parou de suar. Ela foi até o guarda-roupa e vestiu roupas que valiam a pena. Escolheu como uma estrela se vestiria para um filme noir. E fez uma xícara de bom chá, importado. E bebeu em uma boa xícara, de louça com desenhos coloridos. Ela sempre gostou de chás e de xícaras, mas por falta de tempo e de companhia, nunca bebia o chá que comprava. Ela olhou a xícara bonita, despejou a água, sentiu as mãos esquentarem em contato com a xícara. Sentiu o cheiro do chá que se dissolvia no ambiente e terminou o começo desta cerimônia com o primeiro gole quente e levemente ácido. E ela foi invadida pelo prazer. Sentir o estômago esquentar devagar é uma das razões da existência. Ela se reclinou nas almofadas coloridas e olhou para os seus muitos, muitos livros. Como Carmem gostava dos livros. Cada um, um amigo com uma história dentro e uma fora. Ela sorriu e, como de costume, foi lendo uma ou duas páginas de cada, só para relembrar a história, o tom da narração, frases já esquecidas. Uma brisa fria invadia o pequenino apartamento, balançava as cortinas. Gatos subiram no sofá. Carmem era a personificação do prazer. E decidiu ficar ali. Primeiro ficou alguns minutos pensando. Decidiu hoje organizar os livros por cor, fazendo um arco-íris na estante. Amanhã poderia fazê-lo por ordem alfabética de título, ou de autor. Depois por tamanho, depois por país de origem, depois por editora, depois por ano de publicação, depois por edição, depois por língua, depois por estilo. Haveria entretenimento para todas as noites, quando os olhos estivessem cansados de ler. Ela os organizou, e bebeu o chá e se encolheu e sentiu as meias felpudas acariciando os dedos dos pés. Meias são a segunda razão da existência. Carmem então sentiu algo que há tanto tempo não sentia que nem lembrava mais. A impossibilidade de falar, a falta total da capacidade de interagir com o mundo. Ela empre se sentia assim quando criança e um calor morno a tomava e deixava tudo tão confortável que Carmem não queria mais o mundo o telefone as pessoas. Qualquer uma dessas coisas poderia lhe trazer a dita realidade, com suas irritações e encheções de saco. Ela não atendeu o telefone e quando o namorado preocupado chegou, ela não falou com ele. Ele pediu, implorou e chorou, mas ela olhava pra ele e não conseguia responder, só sorrir distraída, em estado de graça. Ela se sentia bem, e só queria que ele ficasse ali em silêncio e os dois bebessem chás e falassem amenidades sobre livros, mas ele gritava e já sacudia ela e o chá já tinha respingado. Ela não queria que ele sofresse, queria que entendesse que ela estava bem, e que não ia voltar. Seria tão bom se ele pudesse ir para junto dela… mas ele não entendia e sofria e queria saber o que aconteceu. Carmem foi sem problemas. Com suas roupas glamourosas e meias felpudas. Sorrindo e olhando para outra coisa. Ao namorado com os olhos de brilho envidraçado ela falou pela primeira vez: promete que leva todos os meus livros? Promete que não esquece nenhum? E de vez em quando eu quero ver os gatos, ta? Todos os primeiros dez finais de semana ele foi visitar Carmem, levando livros novos e os gatos. Depois conseguiu permissão especial para que os gatos ficassem com ela. Depois teve que trabalhar em um fim de semana. A vida é muito corrida. E depois nunca mais.

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Conto publicado originalmente no site Adelaides, em 12 de janeiro de 2005.

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