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Essa gente que cresceu fazendo biquinho no espelho do banheiro

Este texto é um spoiler do filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild).

 

Quem assiste “Na Natureza Selvagem” termina o filme com a sensação de ter levado um soco, bem na boca do estômago. O filme fala sobre nossa busca pela felicidade.

Ele conta a história real de um cara que corria solo atrás da sua felicidade, e quando se dá conta de que estava correndo na direção errada, já é tarde demais.

A sensação ruim que ficamos ao filme acabar é por isso: sabemos que estamos correndo. E se um dia olharmos para trás e chegarmos a conclusão de que viramos na esquina errada lá no começo e desde então não temos feito nada a não ser nos afundarmos mais e mais na nossa própria perdição? Temos corrido desesperadamente para longe da felicidade?

O personagem do filme decide viver uma vida sem pessoas, acreditando que a felicidade não estava em outros humanos, mas sim na ausência deles. Somos comovidos pela história porque o individualismo impera nas relações atuais, principalmente na internet. E nos identificamos com o moço do filme. Quanto mais fundo na internet a pessoa vive, menos aberta ela está para outros serem humanos.

Fica fácil ter amigos virtuais que vivem a milhares de quilometros, ter encontros sexuais furtivos em salas de bate papo na madrugada, ter milhares de seguidores no twitter e chamar isso de vida.

E nas relações humanas, presenciais, o que conta é o prazer imediato, é encontrar alguém que nos ache tão incrível quanto nossos milhares de amigos virtuais acham. Se não der certo a fila anda, pegue a senha, mulher é que nem biscoito, come uma vem mais oito, iguais a você eu conheço mais de cem, etc.

Somos convencidos pela pseudo glória da internet que a cada esquina existe um par perfeito, uma pessoa maravilhosa e que ainda acha que somos perfeitas para ela. O elogio fácil feito para semi desconhecidos convenceu uma geração Mari Moon que suas fotos no Fotolog são ***DeeMaiSsS!! Me aDD! :D###***. Essa gente que cresceu fazendo biquinho no espelho do banheiro para ser chamada de gostosa entrou na vida adulta sentindo-se PHODA e ligando cada vez menos para quem está ao seu lado.

Será que um dia vamos descobrir que as escolhas que fizemos a favor da carreira, do dinheiro e da glória não valem nada, porque as pessoas que gostaríamos de ter ao nosso lado para compartilhar já não estão mais lá?

Até que ponto se afastar da família, dos amigos, da pessoa que te ama vai valer a pena quando você chegar “lá”? Será que o “lá” vai ser um lugar vazio, e que vamos lamentar não ter parado antes, ter nos contentado com menos e ter aproveitado mais a companhia das pessoas? Será que, no fim das contas, a vida não é isso?

Aposto que você tem planos para a sua carreira daqui a dez anos, mas, e a sua vida pessoal? Como vai estar? Separado, sozinho, desconfiado e amargo? Já cansado de tudo e sem forças para recomeçar, você entende o que o personagem de Into the Wild descobriu: A felicidade só é real quando é compartilhada.

Recomendo a todos o filme. Não traz respostas, mas faz as perguntas certas.

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Reticências

E Carmem cansou. Cansou do emprego, de ser observada e controlada por um chefe, que não era mau, mas era um chefe. E cansou do namorado, que parecia prestativo e interessado, mas que sempre deixava Carmem com a sensação de que ele era um grande egoísta. E cansou da faculdade, que como todos sabem, é quase tão inútil quanto o segundo grau. E cansou de ver gente triste e gente pobre. Todo mundo cansa. Mas Carmem CANSOU, realmente, de uma forma sem volta. Cansou da vida. Dessa coisa tão sofrida e desinteressante e sem sentido que é a vida. Decidiu que não ia pautar uma existência tão curta por regras que ela nem pôde opinar na criação. Ela ia fazer só o que valia a pena. E como um sinal divino, nuvens encobriram o verão do senegal e Carmem parou de suar. Ela foi até o guarda-roupa e vestiu roupas que valiam a pena. Escolheu como uma estrela se vestiria para um filme noir. E fez uma xícara de bom chá, importado. E bebeu em uma boa xícara, de louça com desenhos coloridos. Ela sempre gostou de chás e de xícaras, mas por falta de tempo e de companhia, nunca bebia o chá que comprava. Ela olhou a xícara bonita, despejou a água, sentiu as mãos esquentarem em contato com a xícara. Sentiu o cheiro do chá que se dissolvia no ambiente e terminou o começo desta cerimônia com o primeiro gole quente e levemente ácido. E ela foi invadida pelo prazer. Sentir o estômago esquentar devagar é uma das razões da existência. Ela se reclinou nas almofadas coloridas e olhou para os seus muitos, muitos livros. Como Carmem gostava dos livros. Cada um, um amigo com uma história dentro e uma fora. Ela sorriu e, como de costume, foi lendo uma ou duas páginas de cada, só para relembrar a história, o tom da narração, frases já esquecidas. Uma brisa fria invadia o pequenino apartamento, balançava as cortinas. Gatos subiram no sofá. Carmem era a personificação do prazer. E decidiu ficar ali. Primeiro ficou alguns minutos pensando. Decidiu hoje organizar os livros por cor, fazendo um arco-íris na estante. Amanhã poderia fazê-lo por ordem alfabética de título, ou de autor. Depois por tamanho, depois por país de origem, depois por editora, depois por ano de publicação, depois por edição, depois por língua, depois por estilo. Haveria entretenimento para todas as noites, quando os olhos estivessem cansados de ler. Ela os organizou, e bebeu o chá e se encolheu e sentiu as meias felpudas acariciando os dedos dos pés. Meias são a segunda razão da existência. Carmem então sentiu algo que há tanto tempo não sentia que nem lembrava mais. A impossibilidade de falar, a falta total da capacidade de interagir com o mundo. Ela empre se sentia assim quando criança e um calor morno a tomava e deixava tudo tão confortável que Carmem não queria mais o mundo o telefone as pessoas. Qualquer uma dessas coisas poderia lhe trazer a dita realidade, com suas irritações e encheções de saco. Ela não atendeu o telefone e quando o namorado preocupado chegou, ela não falou com ele. Ele pediu, implorou e chorou, mas ela olhava pra ele e não conseguia responder, só sorrir distraída, em estado de graça. Ela se sentia bem, e só queria que ele ficasse ali em silêncio e os dois bebessem chás e falassem amenidades sobre livros, mas ele gritava e já sacudia ela e o chá já tinha respingado. Ela não queria que ele sofresse, queria que entendesse que ela estava bem, e que não ia voltar. Seria tão bom se ele pudesse ir para junto dela… mas ele não entendia e sofria e queria saber o que aconteceu. Carmem foi sem problemas. Com suas roupas glamourosas e meias felpudas. Sorrindo e olhando para outra coisa. Ao namorado com os olhos de brilho envidraçado ela falou pela primeira vez: promete que leva todos os meus livros? Promete que não esquece nenhum? E de vez em quando eu quero ver os gatos, ta? Todos os primeiros dez finais de semana ele foi visitar Carmem, levando livros novos e os gatos. Depois conseguiu permissão especial para que os gatos ficassem com ela. Depois teve que trabalhar em um fim de semana. A vida é muito corrida. E depois nunca mais.

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Conto publicado originalmente no site Adelaides, em 12 de janeiro de 2005.