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A sua dignidade termina quando começa a do outro

Existem diferentes tipos de pessoas, com diferentes temperamentos. Tem gente que guarda mais, tem gente que fala mais e tem gente que guarda muito e fala muito.

Até aí nenhuma novidade. Ao longo da minha existência neste planeta tive a oportunidade de primeiro ver o efeito que minhas palavras causam nos outros e depois ver o efeito que as palavras dos outros tem em mim.

Vindo de uma linhagem de sangue quente, um dia olhei para minha vida e me dei conta de que outras pessoas pagaram pela minha língua. Falei coisas desnecessárias e magoei pessoas a quem eu quero bem.

Quando esta ficha caiu, passei a tentar evitar soltar a língua de qualquer jeito. É difícil, às vezes eu não agüento, mas consigo ver uma razoável melhora, comparado ao que eu já fui.

Só que junto com esta nova atitude também desenvolvi uma nova consciência: a de que temperamento é controlável e não uma desculpa para invadir a dignidade alheia. Faço um esforço danado para não invadir a dignidade dos outros e isto faz eu valorizar muito a minha.

Quando se tem noção do peso das próprias palavras e da capacidade de ferir fica mais difícil entender a língua ferina dos outros. Existe um limite muito claro, uma linha neon, que todo mundo sente quando cruza. Aí vem a grandeza de espírito de se dar conta e tentar reverter a situação imediatamente. Quando você observa alguém se dando conta de que acabou de cruzar a sua linha, e a pessoa finge que não notou, o que fazer?

A sensação é avassaladora, neste momento e nos próximos em que será necessária a convivência entre as partes. Tanto para quem fala como para quem ouve, a mágoa pesa uma tonelada no ar.

Alguém um dia disse que quem fere esquece, mas quem é ferido nunca.

De minha parte, não sei dizer realmente se o que me marcou mais foi quando falei violentamente ou quando ouvi navalhadas. Nunca esqueci nenhum insulto que passou pela minha vida, nem indo nem voltando, e certamente esta não foi uma escolha consciente. Preferia esquecer palavras como esqueço as chaves e o celular, mas tenho uma memória cruelmente seletiva. Amanhã não vai estar tudo bem.

Ainda escorrego muitas vezes no conteúdo, mas já sei escolher melhor as palavras. Digo coisas desnecessárias e amargas, mas já superei o impulso adolescente de pecar na forma. Um dia espero chegar à perfeição, de ser incapaz de magoar um vivente.

Nesse meio tempo, como fazer para sobreviver? Não estou me sentindo muito cristã, no momento não tenho a menor inclinação a oferecer a outra face. O que mais me tenta é o impulso de oferecer as costas, mesmo.

As escolhas da vida passam pelo quê dizer, como dizer, como ouvir e como administrar o que foi ouvido, e esse processo todo ainda é um grande mistério para muita gente, principalmente para mim.