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O Retrato de Dorian Gray – o filme

Fui assistir a exibição para imprensa do filme O Retrato de Dorian Gray. O filme é baseado no livro de Oscar Wild, de 1890, e a história não poderia ser mais atual: vaidade, hedonismo, aparências.

A história:

Dorian Gray é um moço ingênuo do interior, que vai para Londres após receber uma grande herança. Lá ele conhece Basil, um pintor que se apaixona por sua beleza e pureza de caráter. Basil resolve pintar o retrato de Dorian, e durante a execução da pintura Dorian acaba conhecendo Henry Wotton, um lorde ácido e debochado, amigo de Basil.

Henry começa a tentar “desvirtuar” Dorian, a princípio apenas para irritar Basil, mas ao ver que Dorian acredita em absolutamente tudo o que ele fala, Wotton se diverte ao levar o moço cada vez mais longe em suas perversões e cinismo, para o desespero de Basil.

Dorian Gray só se dá conta de sua beleza atordoante quando vê pronto o quadro pintado por seu amigo. Henry debocha do seu embevecimento pela pintura argumentando que ela era melhor do que o verdadeiro Dorian, porque ele envelheceria, mas a pintura não. Dorian Gray diz que venderia a alma ao Diabo para não envelhecer nem um só dia.

A partir deste momento, todas as cicatrizes, manchas e deformações causadas pelos vícios apresentados pelo Lorde a Dorian Gray mancham a pintura, mas o jovem continua sempre com o rosto de quem nunca teve um pensamento cruel na vida. Por despeito à juventude e beleza de Gray, Henry o incentiva a buscar o prazer acima de tudo, a não se importar com nada nem ninguém e considerar todo o mal feito a outros apenas uma “experiência”.

Quando Gray decide viajar o mundo em busca de novas perversões e prazeres Lord Henry se recusa a acompanhá-lo. Ele próprio não tem coragem de viver a vida que pregava a Dorian. Mas Dorian vai, e retorna vinte e cinco anos depois, para encontrar seus amigos grisalhos e velhos, enquanto ele continua com todo o frescor da juventude no rosto.

Mas agora o jovem e belo Dorian é uma ameaça ao velho Henry, e tudo o que ele fez para corromper o moço inocente volta, trazendo a lei do eterno retorno para cobrar seu preço, quando a filha de Henry apaixona-se por Dorian.

Reflexões:

A história fascinante traz várias reflexões:

–  Não estaria o valor da beleza justamente em sua transitoriedade?

– Sobre Lorde Wotton, a questão é: quantas pessoas conhecemos que são rebeldes apenas até a página dois? Que agem e falam como se vivessem a vida louca, mas ao fim do dia voltam para suas famílias de classe média para se preocupar com as prestações e o colégio das crianças?

– Manter o mesmo rosto não significa isolar a alma do apodrecimento do crime e dos vícios. Os anos mudam quem você é. Se você aceitar pode fazer o melhor disto, ou pode tentar viver para sempre como jovem, e, na busca pelas mesmas sensações novas e intensas do começo da vida, se perder nos excessos. Para este caminho não há volta.

Sobre a adaptação

Pessoalmente, achei o roteiro bastante fiel ao livro e não me importei com o acréscimo de um “background”, um passado para Dorian. No filme ele é apresentado como um jovem que era espancado pelo avô, como uma explicação para seu mergulho nos vícios (seria para esquecer o abuso sofrido ou porque tinha a mesma predisposição genética para a violência e o crime?).

As viagens de Dorian são descritas com Henry lendo as cartas enviadas pelo amigo de vários cantos do mundo. Talvez para economizar tempo, talvez dinheiro. Eu gostaria que as viagens tivessem sido mais exploradas no filme.

Na minha interpretação pessoal do livro, sempre achei que Dorian era apaixonado por Lord Henry, e por isso entregou-se tão facilmente a todas as suas perversões, mas o filme não faz esta insinuação. Inclusive, mostra Henry bem hétero. Estranho.

Imagino que Oscar Wild ia achar as cenas de secanagem extremamente sessão da tarde. Era um filme que podia pegar mais pesado e acaba ficando só na insinuação.

No geral, gostei muito da adaptação. Vale a pena assistir.

Ficha técnica

“O RETRATO DE DORIAN GRAY” foi dirigido por Oliver Parker, a partir do roteiro de Toby Finlay,  baseado no romance de Oscar Wilde.

BEN BARNES (As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian) assume o papel principal como Dorian Gray e é acompanhado por COLIN FIRTH (O Diário de Bridget Jones) como o carismático Henry Wotton. BEN CHAPLIN (Além da Linha Vermelha) é o pintor Basil.

Estará nos cinemas a partir de março, distribuído pela Europa Filmes.

Trailler:



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Essa gente que cresceu fazendo biquinho no espelho do banheiro

Este texto é um spoiler do filme Na Natureza Selvagem (Into the Wild).

 

Quem assiste “Na Natureza Selvagem” termina o filme com a sensação de ter levado um soco, bem na boca do estômago. O filme fala sobre nossa busca pela felicidade.

Ele conta a história real de um cara que corria solo atrás da sua felicidade, e quando se dá conta de que estava correndo na direção errada, já é tarde demais.

A sensação ruim que ficamos ao filme acabar é por isso: sabemos que estamos correndo. E se um dia olharmos para trás e chegarmos a conclusão de que viramos na esquina errada lá no começo e desde então não temos feito nada a não ser nos afundarmos mais e mais na nossa própria perdição? Temos corrido desesperadamente para longe da felicidade?

O personagem do filme decide viver uma vida sem pessoas, acreditando que a felicidade não estava em outros humanos, mas sim na ausência deles. Somos comovidos pela história porque o individualismo impera nas relações atuais, principalmente na internet. E nos identificamos com o moço do filme. Quanto mais fundo na internet a pessoa vive, menos aberta ela está para outros serem humanos.

Fica fácil ter amigos virtuais que vivem a milhares de quilometros, ter encontros sexuais furtivos em salas de bate papo na madrugada, ter milhares de seguidores no twitter e chamar isso de vida.

E nas relações humanas, presenciais, o que conta é o prazer imediato, é encontrar alguém que nos ache tão incrível quanto nossos milhares de amigos virtuais acham. Se não der certo a fila anda, pegue a senha, mulher é que nem biscoito, come uma vem mais oito, iguais a você eu conheço mais de cem, etc.

Somos convencidos pela pseudo glória da internet que a cada esquina existe um par perfeito, uma pessoa maravilhosa e que ainda acha que somos perfeitas para ela. O elogio fácil feito para semi desconhecidos convenceu uma geração Mari Moon que suas fotos no Fotolog são ***DeeMaiSsS!! Me aDD! :D###***. Essa gente que cresceu fazendo biquinho no espelho do banheiro para ser chamada de gostosa entrou na vida adulta sentindo-se PHODA e ligando cada vez menos para quem está ao seu lado.

Será que um dia vamos descobrir que as escolhas que fizemos a favor da carreira, do dinheiro e da glória não valem nada, porque as pessoas que gostaríamos de ter ao nosso lado para compartilhar já não estão mais lá?

Até que ponto se afastar da família, dos amigos, da pessoa que te ama vai valer a pena quando você chegar “lá”? Será que o “lá” vai ser um lugar vazio, e que vamos lamentar não ter parado antes, ter nos contentado com menos e ter aproveitado mais a companhia das pessoas? Será que, no fim das contas, a vida não é isso?

Aposto que você tem planos para a sua carreira daqui a dez anos, mas, e a sua vida pessoal? Como vai estar? Separado, sozinho, desconfiado e amargo? Já cansado de tudo e sem forças para recomeçar, você entende o que o personagem de Into the Wild descobriu: A felicidade só é real quando é compartilhada.

Recomendo a todos o filme. Não traz respostas, mas faz as perguntas certas.