Moreno alto, bonito e sensual. Talvez você seja a potencialização dos meus problemas.

Todos nós temos um hábito, um traço de personalidade, um vício ou costume que sabemos não ser o ideal. É aquela coisinha que às vezes dá vergonha, nos faz sentirmos menos do que os outros. Eu chamo isso de “cantinho negro” da personalidade. O seu vício, seu defeito primordial. Para alguns é um cantinho, para outros, grandes paredes negras de desvio de conduta.

Pode ser o cigarro, a bebida, o uso de alguma droga, a preguiça, a agressividade, a mentira, depressão… you name it. Qualquer coisa que te faça mal.

Um relacionamento serve para muitas coisas, e uma delas é fazer você se sentir bem consigo mesmo. E para alcançar esta sensação de bem estar, muitas vezes, é mais importante partilhar defeitos do que qualidades. Só que o problema de ter alguém que “te entende” e partilha defeitos é que estes defeitos acabam parecendo qualidades.

Encontrar alguém que tenha exatamente o mesmo defeito gera uma sensação de conforto. “Ufa, eu sou normal. Esta outra pessoa também é assim e eu acho ela incrível”.

Neste tipo de relacionamento, que começa de forma tão reconfortante e cheia de compreensão, o grande risco é que na ânsia de afirmar a própria normalidade, cada um vá puxando o outro para mais fundo dentro do poço em comum, e a relação acabe virando uma disputa doentia para ver quem é mais degenerado.

Sim, porque depois de estabelecer que o “defeito” é na verdade uma qualidade, algo que os diferencia dos demais, começa uma disputa entre o casal para ver quem é o pior/melhor naquilo.

Digamos que uma garota fumante encontra um cara que fuma com orgulho e vê isso como um estilo de vida. Logo vão concordar sobre como é chata essa sociedade de falso moralismo que trata fumantes como criminosos, como as estrelas de filmes noir eram charmosas com seus cigarros blasés e como fumantes são superiores a toda essa geração saúde escrota.

Quando estiverem juntos vão fumar o tempo todo, no carro, no quarto, cozinhando… e um dia ela vai acordar com ele fumando um cigarro ao seu lado na cama, antes de levantar pra lavar o rosto. E ela não vai mais saber se tem direito de recriminar esse comportamento. E na dúvida, para não parecer fraca ou inferior, vai puxar o seu cigarro também, e aguardar a oportunidade de fumar quando isto for incomodar o outro, pra mostrar que é mais fumante que ele.

Por mais que a garota saiba que o cigarro faz mal, ao entrar em uma relação onde o fumo vira status, ela só vai conseguir fazer uma tentativa de parar quando a outra parte concordar. Se concordar. Mas aí o que era a cola do relacionamento desaparece. E fica faltando aquela grande identificação que havia antes, trazendo cada vez mais peso para as diferenças entre os dois.

Alguém poderia chamar isto de má influência, mas considero que má influência é quando uma pessoa adquire o defeito da outra. Quando as duas já possuíam o tal defeito antes de se conhecerem, prefiro chamar de “potencialização de problema”. Você acha que está tudo bem, e quando vê já perdeu o controle.
Vamos analisar um caso real, que todo mundo acompanhou na época:

i love you because we hate same stuff

Quando o lutador Vitor Belfort começou a namorar a Feiticeira, ele deu uma declaração tipo “eu sempre falava pras minhas namoradas: cala a boca e senta aí, e elas obedeciam. Aí eu conheci a Joana e falei cala a boca e senta aí pra ela. Ela respondeu: cala a boca é o caralho. E eu me apaixonei”. Eis um casal agressivo.

O problema de poder ser estúpido porque a outra pessoa também é estúpida é que você perde o limite da realidade, do que é civilizado. Quando Belfort falava grosso com uma menina e ela chorava, ele podia até não gostar, mas era uma demonstração clara de que ali havia um limite e ele cruzou. Ao encontrar uma mulher que fala mais grosso que ele, a sensação de ser um monstro passou, e ele se apaixonou. Sentiu-se normal. Mas o limite também desapareceu, e ele podia soltar toda a grossura reprimida, afinal ela aguentava o tranco. E vice versa. E quanto mais longe um ia, o outro tentava mostrar que podia mais.

Por mais que alguém possa argumentar que provavelmente havia carinho entre os dois na maior parte do tempo, não ter controle do comportamento agressivo pode ser muito perigoso quando os ânimos se exaltam. E quem vai dar o braço a torcer e pedir arrego? Se o casal disputa pra ver quem é mais turrão e quem aguenta mais, onde fica a linha? E se um dos dois resolver desenhar a linha, o outro vai acreditar nela?

Considerando o casal exemplo: se Joana um dia começar a chorar por alguma grosseria que o lutador disser a ela, ele vai acreditar nas lágrimas? Vai se apiedar tanto quanto faria por outra mocinha mais delicada? Ou vai simplesmente assumir que ela aguenta o tranco de qualquer coisa e está fingindo a mágoa?

Este é o fundo do poço. Quando você já mistura a sua personalidade à do outro e assume que o comportamento dele vai ser o mesmo que o seu. Que vocês terão para sempre a mesma relação com o cantinho escuro da alma. Quando um pede pra sair, joga a toalha, o outro não para, quer mais, quer forçar que a situação continue para que a cola não se perca.

Quando o que une um casal é primordialmente um “desvio de caráter”, a relação vive o eterno risco de uma das partes querer evoluir, melhorar, largar o vício e mudar de vida. Quando este momento chegar a outra parte provavelmente vai se sentir traída e muito pouco inclinada a acompanhar a mudança.

E fica então a grande questão dos relacionamentos: é preferível alguém que seja o seu oposto nos seus defeitos ou alguém que partilhe deles? No primeiro caso você vai se sentir inadequado várias vezes, mas os monstros ficarão na coleira. No segundo você se sente livre para soltar as feras, mas pode acabar sendo devorado por elas.

Nem sempre o que atrai, o que gera o magnetismo, é o melhor para a nossa vida. Aí que entra o velho bom senso. As vezes é necessário se içar sozinho pra fora do poço, inclusive com outra pessoa tentando te segurar pelo pé. É muito mais fácil se deixar cair de volta, mas respirar fundo e lutar com todas as forças até reencontrar a luz do dia fará você pensar duas vezes quando aparecer outro poço na sua vida.

 

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