A fina arte de ser mulher: coisas que os homens não entendem

Diva

Apesar de todos os avanços do feminismo, ser mulher ainda requer algumas sutilizas que o masculino dispensa. Estou sempre refletindo a respeito, apesar de não falar no assunto com freqüência para não aborrecer os outros. Mas hoje estou com vontade.

Minha irmã está analisando a possibilidade de começar um pequeno empreendimento com algumas amigas. O pai de uma delas declarou que não era uma boa idéia, por ser um grupo formado apenas por mulheres. Pessoalmente consigo listar uma dúzia de motivos para se pensar duas vezes antes de começar qualquer negócio. Pelo menos doze razões para não tentar, e nenhuma delas envolve questões de gênero.

Entristece-me quando esse tipo de argumento ainda é utilizado. Nunca neguei que homens e mulheres são diferentes e lutam por seus objetivos de maneiras distintas, mas não duvido da capacidade de ninguém de obter sucesso.

Na minha profissão sofri o clichê de ter uma indicação condicionada a sexo. Ao negar, ouvi barbaridades, como a que logo vou estar feia e velha e ninguém vai me querer e estou desperdiçando uma ótima oportunidade de crescimento. Homens não precisam passar por esse tipo de situação. Mulheres passam, e muitas aceitam e “aproveitam”.

Mais um exemplo de diferença: ser mulher me impede de ter um blog e falar abertamente de sexo. Nunca poderia escrever um texto tipo “10 dicas de como fazer sexo oral”, como muitos textos que circulam na internet, e esperar ser tratada da mesma forma como homens que escrevem isso. Para os homens é ok, é normal, mesmo que ainda traga alguns estigmas e até um pouco de preconceito. Para as mulheres é simplesmente impossível. Ou a garota teria um estilo de vida completamente moderno e “maluquinho”, baseado na sua sexualidade, ou afundariam suas chances no ambiente corporativo.

Mulheres, portanto, são obrigadas a usar subterfúgios, diminutivos, justificativas e pseudônimos para situações que para os homens são corriqueiras. E para muitos deles isso passa batido. Já escutei homens declararem por aí que as mulheres são iguais aos homens em algumas situações. Bobagem. Nunca serão!

Criaturas que desde cedo são reprimidas em relação sexo e a cocô desenvolvem-se muito diferente das demais. O preconceito diz que mulheres são mais ardilosas. Claro! Uma criança que não pode dizer que vai ali fazer cocô e já volta começa a entender que na vida muitas situações, por mais simples e cotidianas, para ela serão pequenos dramas e exercícios de “jeitinho” e jogo de cintura. Logo essa fina arte torna-se intrínseca a nós e é aplicada com mais ou menos critério em todas as situações.

E os homens, ao mesmo tempo que negam o preconceito e a opressão, sentem-se confotabilíssimos na posição de super homens e protetores, e repudiam qualquer pequena insurreição. Uma pequena menção a cocô no meio de um texto ainda causa mal estar. E aí vem aquele comentário carinhoso, avisando para o meu próprio bem que não é legal citar isso como exemplo em um texto.

Muito do comportamento feminino não acontece porque a mulher prefere assim, mas porque dá menos trabalho do que bater de frente. Grande parte das mulheres são seres bastante escrotos quando estão sozinhas. Como os homens, elas dão o melhor de si para impressionar o sexo oposto. A diferença é que os homens assumem a escrotidão com orgulho, mesmo que a reprimam diante das companheiras. Para as mulheres não basta estar bem naquele momento, é necessário fazer crer que são assim o tempo todo.

Gosto da minha condição de mulher. Muitas vezes na minha infância e adolescência desejei ser menino, poder agir como eles e não precisar de tanta frescura. Demorou até eu fazer as pazes com meu gênero. Isso aconteceu quando eu vi que os preconceitos que eram apresentados a mim em uma cidade interiorana eram problema de quem os pregava, e não meus. Quando entendi que posso fazer tudo o que quiser, da maneira que preferir, minha raiva passou.

Ganhei o mundo e saí da minha cidade natal, mas fi-l0 porque qui-lo, não porque era a minha única possibilidade. Em qualquer lugar é possível desenvolver um talento, basta querer. Fugir não resolve, apenas ganha tempo para lidar com a situação. Aprendi que para ter os direitos masculinos não é necessário emular as características negativas associadas a eles, como muitas mulheres pensam. Basta ser muito mulher e acreditar em si.

Ser mulher compreende lidar com mais conseqüências, ter que se provar mais, sofrer mais dor física. Mas também traz liberdade. Entender as agruras do meu gênero não é ignorar as do outro. E hoje acho que, com os estigmas que recebemos ao longo da vida, as mulheres são mais livres que os homens. Na infância aprendemos a ter vergonha de nossos intestinos enquanto eles usam fantasias de super-homem. Para nós, o eterno negar nossos instintos primitivos. Para eles, a frustração infinita de não ter salvo o mundo.

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    • Daniel
    • 12 de Novembro, 2010

    Olá, Ana,

    Antes de tudo, parabéns pela qualidade do texto e pela imparcialidade de não ignorar as agruras do outro gênero, o meu. Em desabafos, ser imparcial é louvável.

    Também não concordo com o argumento dado pelo pai da amiga da sua irmã e acho que você está certa em muitas coisas. É bom ver uma mulher que consegue enxergar que há pressão cultural em coisas tão pequenas (ainda mais nas questões do desenvolvimento sexual e na do nojo em relação aos excrementos; essa última só me chamou a atenção quando li Freud, e acho totalmente verdadeira).

    Sempre falei pra muitas mulheres sobre esse tipo de opressão. A meu ver, aliás, ela se manifesta de modo mais claro na procura obsessiva e permanente das mulheres por um homem. Muitos dizem que isso é instinto, mas eu acho que é mais um forte sinal da pressão cultural de uma sociedade patriarcal. Gostaria de ver as mulheres de quem gosto centrando suas vidas em questões existenciais, profissionais e humanas, em vez de na busca do príncipe encantado. Não que não buscassem o amor, mas que ele fosse só um dos aspectos importantes da vida, e não algo sem o que não se pode viver.

    Tenho pensado, há um tempo, no outro lado dessa questão. Continuo tendo a mesma postura descrita acima e ainda discuto isso com quem me importo, mas acho que o ponto de vista tradicional “mulheres sofrem e homens se dão bem”, como quase tudo que é senso comum, não é realmente verdade, como você mesma acabou apontando. Nós, homens, também somos pressionados, mas sobretudo em relação aos outros homens: um dos motivos, creio, para esse mal-entendido. A necessidade de dar certo na vida, de conseguir patrimônio, de estar à altura das expectativas dos pais são coisas que ainda pesam mais para nós do que para vocês. E, mesmo em relação a vocês, nós sofremos forte pressão para que sejamos sempre viris, potentes (em todos os sentidos), protetores e capazes de “cuidar”, além de sexualmente estarmos à altura da mulher. Muitas mulheres se enganam terrivelmente ao pensar que o homem só se preocupa com a sexualidade ao ficar mais velho, por exemplo; que, na juventude, tudo é festa pra nós e o resto que se acabe. Fragilidade, vulnerabilidade, medo e indecisão são coisas que, inegavelmente, prejudicam a imagem de um homem perante as mulheres. Não podemos demonstrá-las quase nunca. Nem admitirmos pra nós mesmos que os temos. Nós buscamos, permanentemente, representar um papel, assim como vocês. Só mudam os traços das personagens que representamos e, sem dúvida, a intensidade de algumas pressões. Agora, assim como nós temos dificuldades em perceber as pressões que vocês sofrem, não tenho dúvidas de que o oposto também é verdadeiro.

    No fim, talvez você esteja certa em pensar que, ao menos em alguns aspectos, as mulheres ainda são mais livre do que os homens. Mas acho que a pressão é forte sobre todos nós e, em grande parte, porque todos nos cobramos demais, todos esperamos demais do outro, sobretudo do sexo oposto, em função do peso que o sexo e as relações amorosas têm nas nossas vidas.

    Enfim, quis comentar só porque esse é um assunto pouco discutido e pouco levado a sério, e pelo qual me interesso bastante. Sei que é seu blog pessoal e respeito sua opinião. Novamente, parabéns pela lucidez.

    Um abraço,

    Daniel

    • Obrigada pelo comentario enorme!
      Estou retomando o habito de escrever por recreação e todo feekback é muito animador. 🙂
      Mesmo sendo um blog pessoal, as minhas opniões não escritas em pedra (só em bytes, hehehe) e eu aceito opiniões contrárias com muita tranquilidade. Acho que só temos a ganhar com o debate!

      Bem vindo ao blog, volte sempre!

    • Mariana Trichêz @Mirind4
    • 13 de Novembro, 2010

    Texto muito bom, parabens pelo don da escrita eh invejavel!

    Creio eu q todas as mulheres passaram por “castrações” ao longo da vida e desde a mais tenra idade, eu lembro como hoje o dia em q meu pai me disse q era feio eu olhar com curiosidade minhas partes intimas, detalhe, eu tinha 5 anos e sei q essa desaprovaçao acompanhou minha vida sexual ateh pouco tempo atras, mas graças a minha pouca inteligencia consegui me livrar desse tabu, mas lembro tbem o quanto meu pai incentivava meu irmao a olhar e tocar sua genitalia…nada imparcial, sexualidade no mundo “moderno” nao eh nada imparcial.

    Bom, qto ao pai da amiga da sua irmã…uffa!…credo q machista!!!!

    imagina só oq ele deve achar sobre uma mulher adiministrar um país!?!?!

    Escreva sempre…abraços!

    • Obrigada, Mari!
      concordo contigo, dentro da mesma familia meninos e meninas tem criação completamente diferente. Espero que a proxima geraçao de homens seja melhor, tendo sido criados por maes modernas!

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